Eu Preciso Meditar para Estar Mindful?

Bem, pergunte a si mesmo: você consegue simplesmente decidir ser bom no basquete? Ou falar francês? Ou tocar piano? Enquanto alguns de nós pode ter uma aptidão maior para aprender essas habilidades, elas ainda têm de ser praticadas.

Por:
Gil Sant'Anna
Meditação Mindfulness

 

Esta é uma das perguntas mais comuns que as pessoas me fazem querendo saber se mindfulness é para elas. Há muitas vezes algo mais por trás da pergunta: a maioria dos cursos de mindfulness pede aos participantes para praticar por até 45 minutos por dia, a sugestão é que isso será uma parte vital do processo de aprendizagem. Quarenta e cinco minutos por dia parece um monte de trabalho para a maioria das pessoas, especialmente em uma cultura onde sentar-se calm@ e “não fazer nada” em qualquer momento é incomum. Se mindfulness significa apenas estar atent@, porque eu não posso fazer isso sem ter que meditar? Não posso simplesmente decidir a perceber as coisas um pouco mais?

Bem, pergunte a si mesmo: você consegue simplesmente decidir ser bom no basquete? Ou falar francês? Ou tocar piano? Enquanto alguns de nós pode ter uma aptidão maior para aprender essas habilidades, elas ainda têm de ser praticadas. Temos que colocar algum esforço nelas. Evidências neurocientíficas e de estudos clínicos emmindfulness sugere que prestar atenção é uma arte a ser cultivada da mesma maneira – nós podemos desenvolver nossa capacidade em estar atento através de treinamento. É também o que os meditadores vêm relatando ao longo de séculos.

Quanto mais fizermos algo, maior a probabilidade de continuar a fazer esse algo, e fazer bem – é assim que hábitos são formados e habilidades são adquiridas. Portanto, faz sentido que quanto mais praticamos a meditação – a arte de prestar atenção – mais mindfulestaremos.

Talvez uma das desvantagens da mudança gradual do uso da palavra meditação para a palavra mindfulness é que a meditação traz mais um sentido de uma prática, e não apenas um determinado atributo. “Decidir estar atento (mindful)” é algo que vem da cabeça, um pensamento, enquanto que “a prática da meditação” traz mais um sentido de realização. Se queremos que a nossa “consciência” (mindfulness) seja algo que nós somos, mais do que apenas um pensamento de algo que gostaríamos que fosse, parece que precisamos cultivá-la através da meditação.

Mas calma, há uma ressalva a isso – a ciência ainda não nos diz claramente o quão importante é a prática da meditação para o estado mindfulness. Vários estudos sugerem que a prática contínua da meditação modifica nosso cérebro, corpo e experiências de forma aparentemente benéficas. O que é menos claro é o efeito da prática contínua da meditação sobre essas mudanças – é a prática ou outra coisa que leva aos benefícios observados?

Tradição, lógica e alguns fortes indicadores científicos dizem que a prática da meditação é fundamental, mas ainda não podemos ter a certeza. Baseado na minha experiência como instrutor de mindfulness, percebo que a meditação tem efeitos diferentes em diferentes pessoas, mas isso não pode ser usado para descartar a meditação. De fato, uma revisão do impacto da prática da meditação durante um curso de mindfulness encontrou uma relação muito mais fraca entre o tempo de prática e os resultados do que poderia ter sido previsto. Ainda que existam muitas evidências sugerindo uma relação causal, ainda é cedo na literatura científica, e seria bom ver alguns estudos que compararam o efeito de cursos mindfulness com (e sem) as práticas em casa. Por agora, o importante é entender o quão importante é a meditação formal para cultivar mindfulness.

Hoje, ao meditar na hora do almoço na biblioteca do laboratório em que trabalho em Botafogo no Rio de Janeiro, eu fiquei maravilhado com o clima meio nublado que escondia levemente o Sol brilhando por trás das nuvens, senti uma onda de sensações por todo meu corpo que estava relaxando após uma pedalada de bicicleta para chegar no trabalho e minha mente – parada em momentos de quietude interior, aceitando uma graça de apreciação por ter os sentidos para experimentar tal cena. Senti-me contente, paralizado, disposto e muito mais presente do que quando eu sentei para praticar. Seja qual for o efeito da meditação no meu mindfulness geral e bem-estar, experiências como essa, o sentido de abertura para uma vivacidade vibrante e clara- é preciosa o suficiente para valer muito por ela mesma. Qualquer outra coisa a mais, eu encaro como um bônus.

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Gil Sant'Anna

Gil Sant'Anna é professor de Habilidades Socioemocionais no ambiente universitário.  Leciona essa disciplina livre na Universidade Federal do Rio de Janeiro e é pesquisador assistente em Neurociência no Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino.
É TED Speaker, instrutor de Mindfulness e Certificado em Treinamento em Compaixão por Stanford University.
Gil ama Aprendizado Emocional e acredita que esse tem a força necessária para mudar a educação do Brasil.

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