Meditação mantém suas emoções em cheque

Um novo estudo explora se mindfulness é resultado da meditação, uma disposição natural ou um estado mental espontâneo.

Por:
Gil Sant'Anna

Durante a última década, a comunidade científica tem produzido inúmeros estudos investigando como a prática da atenção plena (mindfulness) influencia nossas mentes, nossos corpos e nosso comportamento. Hoje, nós estamos começando a compreender alguns dos fundamentos físicos e mentais de como a atenção plena pode mudar nossas vidas.

Mindfulness é considerada multifacetada (em outras palavras, confusa) no campo da pesquisa científica. Por exemplo, enquanto alguns estudos definem mindfulness como a capacidade de prestar atenção focada no presente momento, outros se referem como o monitoramento aberto da experiência no presente momento sem julgamento. Na psicologia, mindfulness é considerado como um estado mental, um traço de personalidade, uma prática de meditação, e também uma intervenção psicológica. Questionários, como o Five Factor Mindfulness Questionnaire (FFMQ), também são projetados para detectar diferentes aspectos da atenção plena, tais como o quanto "observadores", "conscientes", "descritivos", "sem julgamento" ou "não reativos" estamos.

Em um estudo recente, os pesquisadores da Universidade Estadual de Michigan estavam dispostos a resolver algumas das nuances conceituais na pesquisa em mindfulness. Eles estavam interessados na pergunta: 

Quais os aspectos da atenção plena são responsáveis pelos efeitos regulatórios emocionais associados com mindfulness?

1) como uma prática de meditação, 

2) como um estado de espírito, ou 

3) como um traço disposicional natural?

COMO FOI FEITO ESSE ESTUDO

Para descobrir, eles recrutaram 68 mulheres com idades entre 18 e 22, os quais nunca tinha praticado mindfulness antes. Para medir disposição natural ao traço mindfulness (isto é, a sua "consciência natural"), eles preencheu o FFMQ e tiveram uma nota de "Agindo com Consciência". O experimento consistiu de duas partes: 

1) na primeira parte, as mulheres ouviam ou uma meditação mindfulness guiada (elas foram instruídas para atender a sua experiência do momento presente de uma forma aberta, sem julgamento, notando sentimentos, pensamentos ou sensações físicas que surgissem), ou uma gravação de uma voz não-meditativa (um TED falando sobre segundas línguas); 

2) na segunda parte, então eles tinham que olhar para uma série de imagens, algumas validadas em evocar respostas emocionais negativas (por exemplo, uma foto de um cadáver ensanguentado) e outras destinadas a ser emocionalmente neutras. Nesta parte, as mulheres eram instruídas a:

  1. visualizar as imagens "naturalmente", ou
  2.  foram dadas instruções específicas para visualizá-las "mindful" (com consciência, atenção), embora tendo conhecimento de todas as sensações, pensamentos e emoções que surgissem, sem tentar alterá-las ou julgá-las.

Ao ver estas imagens, os cientistas também utilizaram um método muito sensível ao tempo para medir sinais elétricos cerebrais (da superfície do couro cabeludo destas mulheres). Este sinal particular do cérebro, chamado de potencial positivo tardio (LPP, do inglês), é como uma "assinatura elétrica" ​​de reatividade emocional que aparece logo depois que elas veem cada imagem. Os sinais LPP são maiores e mais fortes quando as mulheres são mais reativas emocionalmente e menores quando são menos emocionais.

Ao olhar para o quão grande ou pequeno o LPP foi em cada uma destas mulheres quando eles viram as imagens perturbadoras, os autores foram capazes de determinar se o efeito da regulação emocional resultou de 

1) uma meditação mindfulness real,

2) instruções para simplesmente estar em um estado consciente, ou

3) uma disposição natural de estar consciente (mindful).

Indivíduos que são naturalmente conscientes (mindful) conseguem efetivamente regular as emoções, mesmo sem meditação, mas para aqueles que não são naturalmente conscientes, simplesmente forçar-se a estar consciente "no momento" não é suficiente - é preciso se engajar em meditação mindfulness, a fim de efetivamente regular suas emoções.

Em poucas palavras, o que eles encontraram foi o seguinte: Aqueles que eram naturalmente "conscientes" apresentaram menor LPP (menos reativas emocionalmente), mesmo sem meditação ou instrução para a visualização consciente; Uma curta meditação mindfulness guiada é eficaz na redução do LPP (diminui a reatividade emocional); As que foram instruídas para induzir um estado consciente (mindful) sem meditação, não afetou o LPP (sem efeitos regulatórios emocionais).

OS RESULTADOS

Simplificando, os autores argumentam que os indivíduos que são naturalmente conscientes conseguem efetivamente regular as emoções, mesmo sem meditação, mas para aqueles que não são naturalmente conscientes, simplesmente forçar-se a estar conscientes "no momento" não é suficiente - é preciso se engajar em meditação mindfulness, a fim de efetivamente regular suas emoções.

É importante notar que a noção de "atenção plena natural ou inata" neste estudo particular só é definida como a forma como os indivíduos agem com consciência. Então pode ser que isso aumente ou diminua ao longo da vida, dependendo do contexto social, ambientes ou até mesmo a regularidade da prática de meditação.

A prática da atenção plena nos ajuda a prestar atenção e estar presente com a miríade de diferentes sentimentos e sensações que experimentamos na vida como seres humanos e é especialmente útil para observar as consequências negativas que tendem nos derrubar. Este estudo nos mostra que para que você alcance esse estado mindfulness, não basta somente dizer para si mesma(o): "Devo estar consciente". Como uma planta, temos que regá-la constantemente, não apenas quando está a beira da morte.

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Gil Sant'Anna

Gil Sant'Anna é professor de Habilidades Socioemocionais no ambiente universitário.  Leciona essa disciplina livre na Universidade Federal do Rio de Janeiro e é pesquisador assistente em Neurociência no Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino.
É TED Speaker, instrutor de Mindfulness e Certificado em Treinamento em Compaixão por Stanford University.
Gil ama Aprendizado Emocional e acredita que esse tem a força necessária para mudar a educação do Brasil.

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