Posso Ser Sincero Com Você?

Dizer a verdade exige que você saiba a verdade. A meditação mindfulness nos ajuda a ver as formas em que enganamos os outros – e a nós mesmos.

Por:
Gil Sant'Anna

Dizer a verdade exige que você saiba a verdade. A meditação mindfulness nos ajuda a ver as formas em que enganamos os outros – e a nós mesmos.

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Eu estaria mentindo se eu dissesse que eu sempre digo a verdade. Não é que eu sou um mentiroso, mas às vezes eu estou muito ocupado para ser sincero. Ontem, enquanto eu passava pelo centro da cidade no Rio de Janeiro, fui abordado por uma pessoa pedindo doações para uma causa nobre. Eu sou totalmente a favor dessa causa, mas naquele momento eu estava super atrasado. Então eu disse: “Eu já doei”. Não é grande coisa, mas uma pontada de culpa e confusão surgiu – Será que eu realmente já doei? Ou eu estava mentindo para o voluntário e, pior ainda, para mim mesmo?

Mentirinhas, omissões, exageros, abnegação – estas são coisas que a maioria de nós fazemos constantemente, mesmo que em baixa frequência. Será que isso é realmente importante?

Em um ensino sobre a compaixão, o Dalai Lama contou a história de um monge que estava caminhando na floresta quando um cervo passou correndo por ele, logo depois aparece um caçador que perguntou ao monge o caminho que o cervo tinha tomado. O monge, decidido a mentir, apontou para um caminho que vai na direção oposta do cervo. Há, sem dúvida, momentos em que a bondade precisa tomar prioridade sobre a completa honestidade, mas como você decide? Como você pode dizer se você está mentindo, mesmo para si mesmo?

O primeiro passo é cultivar a consciência através demeditação mindfulness. Usando a sua respiração como base para a sua mente distraída, observe quando você é pego em pensamentos aleatórios e sua atenção se desvia da respiração. Faça o seu melhor para permanecer gentil e curioso. Não tente consertar qualquer coisa ou entrar em recriminações contra si mesmo. Basta praticar o desapego de tudo o que você observar, retorne a sua mente para o momento presente por meio da respiração, e, em seguida, comece de novo.

 

Desenvolver clareza e bondade em relação aos nossos próprios hábitos mentais é realmente o primeiro passo para mudar nossos padrões de fala e ação de uma forma que é ao mesmo tempo suave e firmemente enraizada.

 

A meditação mindfulness é uma técnica simples para a observação de todos os pensamentos, boas ou más, tristes ou felizes, honestos ou desonestos. Ao invés de mudar ou rearranjar qualquer coisa, nós praticamos simplesmente repousar no tempo e no espaço e perceber como os pensamentos se dissolvem naturalmente por conta própria. Sentado(a) sobre a almofada, nós em breve começamos a reconhecer certas sequências de pensamento repetitivos. Podemos pensar: “Lá vou eu de novo …” e, em seguida, com um pouco de risada interior, deixar o pensamento ir embora naturalmente e volte para a respiração. Isso acontece de novo e de novo, e, como uma aula de yoga para nossa mente, isso exige um equilíbrio entre esforço e deixar ir. Esta forma de trabalhar com a mente é simples, milenar e revolucionária, porque normalmente nós reagimos e agimos muito rápido sem nenhum senso de diferença em tudo. Desenvolver clareza e bondade em relação aos nossos próprios hábitos mentais é realmente o primeiro passo para mudar nossos padrões de fala e ação de uma forma que é ao mesmo tempo suave e firmemente enraizada.

O segundo passo é tomar a consciência que adquirimos sobre a almofada e trazê-la para o resto das nossas vidas. Para fazer isso, devemos assumir o compromisso de cortar a desonestidade no momento em que ocorre. Eu tenho uma amiga que admitiu um dia para si mesma que ela sempre exagerava, muitas vezes somente para dar aos outros a impressão de que ela era legal e realizada. A fim de mudar seu hábito, ela usou técnicas de meditação, e sempre que ela se ouvia exagerar ela dizia bem no meio da frase, “Oops-menti”, e então começava de novo, com informações precisas.  Sua prática de meditação de deixar ir os pensamentos e retornar para a base da respiração foi aos poucos se traduzindo em ação, ao se tornar mais consciente de sua tendência a exagerar. Na meditação, isso é chamado a tomar um novo começo e pode ser aplicado a qualquer atividade, incluindo a fala ou comportamento desonesto.

Você pode não ter vivido histórias como a da minha amiga, mas você pode ver sua honestidade deslizar se ela ficar no meio do caminho do que você quer. Observe uma típica aula de yoga. Para evitar lesões e obter o máximo benefício a partir de prática de asanas, encorajo meus alunos de yoga a serem honestos consigo mesmos sobre suas capacidades atuais. Mas para alguns, o desejo de tocar em seus dedos do pé é tão avassaladora que eles trituram até seus pescoços, sufocam seus corações, e arriscam sobrecarregar as costas apenas para a sensação passageira de pontas dos dedos da mão sobre a ponta dos dedos dos pés. Este tipo de negação é uma outra forma de desonestidade (bem como uma agressão) e, neste caso, pode significar a perda os benefícios de uma curva para a frente segura e adequada.

Talvez estes exemplos sejam pequenas gotinhas no oceano maior de mentiras e enganos maliciosos, mas um grande negócio é um pequeno negócio que cresceu. Quando andamos pelo do mundo sobre um terreno de desonestidade, a nossa percepção fundamental da realidade começa a se dissolver. Nós já não reconhecemos que já temos tudo o que precisamos para ser feliz. Então, pensando que o que temos ou o que somos não é bom o suficiente, começamos a embelezar a verdade para compensar.

Sabendo que o pensamento se transforma em fala, que se transforma em ação, que acaba afetando todo o nosso mundo, é uma sorte que a meditação pode fornecer um ponto de vantagem clara em que se pode fazer escolhas sobre o que você diz para si mesmo e aos outros. Honestamente, não é que como você gostaria de viver?

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Gil Sant'Anna

Gil Sant'Anna é professor de Habilidades Socioemocionais no ambiente universitário.  Leciona essa disciplina livre na Universidade Federal do Rio de Janeiro e é pesquisador assistente em Neurociência no Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino.
É TED Speaker, instrutor de Mindfulness e Certificado em Treinamento em Compaixão por Stanford University.
Gil ama Aprendizado Emocional e acredita que esse tem a força necessária para mudar a educação do Brasil.

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