Sofrimento pode levar a crenças políticas extremas

De acordo com um novo estudo, experiências de adversidades pode contribuir para atitudes políticas polarizadas.

Por:
Gil Sant'Anna

Muitas explicações têm sido criadas para a crescente polarização de atitudes políticas. 2016 foi um prato cheio tanto no Brasil quanto em todo o mundo. Agora, um novo estudo desvenda um catalisador diferente, mais pessoal para mover para extrema direita ou esquerda. Ele mostra que pessoas que tiveram experiências adversas significativas em suas vidas são mais propensas a gravitar em direção a um ponto extremo no espectro ideológico.

Isso me parece muito um exemplo de "afirmação compensatória" - a tendência amplamente relatada das pessoas de responder à incerteza ou ao medo agarrando-se se mais intimamente aos sistemas de crença que dão sentido à sua vida. Parece que a necessidade de acreditar move muitos para uma posição mais extrema.

Manifestações de 2015.

Uma equipe de pesquisa liderada por Daniel Randles da Universidade de Toronto e Roxane Cohen Silver, da Universidade da Califórnia-Irvine apresenta suas descobertas na revista Social Psychological and Personality Science. Os pesquisadores utilizaram os dados do Societal Implications Study, cujos 1613 participantes eram de uma amostra representativa nacional de norte-americanos.

Os participante foram entrevistados anualmente por três anos, de 2016 até o início de 2009. Em cada ocasião, foram solicitados a opinar sobre uma série de questões referentes à hostilidade e agressão intergrupal, como "Os EUA são justificados por usar a tortura para proteger a segurança nacional".

...experimentar um número maior de eventos dolorosos encoraja as pessoas a "assumir posições cada vez mais extremas".

"A adversidade (ou dificuldades) acumulada ao longo da vida foi medida perguntando aos entrevistados se eles já experimentaram 37 eventos negativos e as idades em que passaram por isso", escrevem os pesquisadores no artigo. Estas incluem: uma doença ou ferimento, violência física, a morte de um ente querido e a experiência de um desastre, como um grande terremoto ou inundação.

No questionário inicial, os participantes relataram quais dessas eles haviam experimentado, com que frequência e quando. Como parte dos dois acompanhamentos, eles foram atualizando as listas para incluir experiências mais recentes.

Os pesquisadores descobriram que, "independentemente da direção, todos são movidos pela adversidade para se tornarem mais polarizados em suas crenças". Ainda mais, viram que experimentar um número maior de eventos dolorosos encoraja as pessoas a "assumir posições cada vez mais extremas".

Essa mudança "parece estar mais fortemente relacionada com a experiência do passado, mas não com a adversidade recente", acrescentam os pesquisadores. Eles especulam que "uma vez que uma pessoa começa a mostrar uma tendência para o pensamento polarizado, o processo torna-se auto-reforçador e permanente."

Estes resultados vêm com várias notas de advertência. Os pesquisadores ressaltam que endurecer as crenças políticas como uma "estratégia de enfrentamento" pode ser restrito a culturas individualistas como a nossa. Eles acrescentam que a adversidade "é apenas um fator que contribui para a motivação de uma pessoa a tomar opiniões extremas ou polares".

Ainda assim, é instrutivo entender que certas necessidades psicológicas levam muitas pessoas à falsa certeza de crenças extremas.

Moral da história: Ao invés de discutir com seu amigo pelo facebook sobre as posições extremistas dele ou dela, pode ser mais produtivo chamá-los para conversar sobre as dificuldades que sofreram.

Tente isso da próxima vez :)

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Gil Sant'Anna

Gil Sant'Anna é professor de Habilidades Socioemocionais no ambiente universitário.  Leciona essa disciplina livre na Universidade Federal do Rio de Janeiro e é pesquisador assistente em Neurociência no Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino.
É TED Speaker, instrutor de Mindfulness e Certificado em Treinamento em Compaixão por Stanford University.
Gil ama Aprendizado Emocional e acredita que esse tem a força necessária para mudar a educação do Brasil.

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