Você pode mudar de Personalidade?

Uma nova revisão de muitas pesquisas que a personalidade não é tão fixa quanto pensávamos.

Por:
Gil Sant'Anna

Atualmente eu sou extrovertido - pelo menos é o que dizem. Eu sou geralmente mais energizado por estar com outras pessoas do que sozinho (ainda que eu AME estar sozinho) e eu prefiro trocar idéias meus amigos ao invés de somente refletir sobre elas sozinho.

Extroversão (versus introversão) é um dos "Cinco Grandes" (do inglês, Big Five) traços de personalidade que os psicólogos identificaram como chave para a personalidade. Juntamente com os outros quatro traços - Abertura a Novas Experiências, Prazer ou Preocupação com a Harmonia social, Consciência ou Autodisciplina, e Neuroticismo ou Instabilidade Emocional - nosso nível de extroversão é considerado um tanto "fixo" quando chegamos à idade adulta, mudando apenas gradualmente ao longo do tempo.

Nós pesquisadores acreditamos que os traços de personalidade não só determinam o que somos, mas também podem afetar nossas relações sociais, experiências no trabalho, saúde mental, física e outros aspectos de nossa vida.

Mas um estudo recentemente publicado sugere que nossa "personalidade" pode ser mais mutável do que pensamos.

"Nem mesmo em nossa imaginação os traços de personalidade seriam coisas que mudariam ao longo de um período de semanas ou meses"

Pesquisadores da Universidade de Chicago analisaram mais de duzentos estudos para ver como diferentes tipos de psicoterapia e medicamentos farmacêuticos impactam traços de personalidade de pessoas com problemas de saúde mental. Embora os estudos clínicos geralmente não visam alterá-los, traços de personalidade são muitas vezes medidos, de qualquer maneira, tornando possível observar mudanças.

Os resultados das análises deste estudo mostraram que em pouco tempo - tão pouco quanto 2-16 semanas de terapia - os traços de personalidade realmente mudaram, de forma positiva e duradoura. Em particular, o Neuroticismo caiu e a Extroversão subiu significativamente, com Consciência e Agradabilidade aumentando também. A Abertura a Novas Experiências era a única característica que não pareceu mudar muito.

Este resultado surpreendeu autor principal do estudo e psicólogo do desenvolvimento, Brent Roberts.

"Nem mesmo em nossa imaginação os traços de personalidade seriam coisas que mudariam ao longo de um período de semanas ou meses", disse ele. "Estamos muito confortáveis com a idéia de que os traços de personalidade poderiam se desenvolver ao longo dos anos, mas não algo mais curto do que isso".

Outras análises sugeriram que essas mudanças na personalidade não eram temporárias, mas duraram muito depois que os tratamentos terapêuticos tinham terminado - pelo menos nos estudos que realizavam análises de acompanhamento de longo prazo. Além disso, as mudanças na personalidade pareciam refletir mudanças reais em traços gerais, não apenas uma mudança temporária no humor, como o alívio de depressão ou ansiedade.

De acordo com Roberts, essas mudanças são significativas por causa da maneira como traços de personalidade como conscientização e neuroticismo estão ligados a nossos relacionamentos, trabalho e saúde. Se as intervenções terapêuticas mudarem a personalidade, elas poderiam ter um significado de longo alcance em outras áreas da vida.

"Isto sugere que nenhuma terapia foi mais eficaz na mudança de traços de personalidade do que outra..."

Ainda mais  surpreendentemente, o tipo de terapia usada - terapia cognitivo-comportamental, mindfulness ou de suporte, por exemplo - parece não importar muito para os resultados. Isto sugere que nenhuma terapia foi mais eficaz na mudança de traços de personalidade do que outra, e que os pacientes podem estar mudando de maneiras que seus terapeutas não visam especificamente (e nem mesmo percebem).

Os terapeutas não só fazem com que os pacientes se sintam melhor - reduzindo sua depressão, por exemplo - eles estão armando-os com ferramentas que podem ajudá-los a medida que avançam ", diz Roberts. "Na maioria das vezes, isso realmente não está na imaginação de ninguém."

A razão pela qual o cliente entrou na terapia afetou o nível de mudança de personalidade. Aqueles que procuraram a terapia para a ansiedade ou transtornos de personalidade (como o borderline personality disorder ou o narcissistic personality disorder) foram os que mudaram mais, enquanto que aqueles com dependência química e transtornos alimentares foram os que mudaram menos. O motivo disso não é claro, especialmente porque transtornos de personalidade são considerados tão difíceis de tratar quanto dependência química. Mas isso sugere que nem todo mundo é capaz de mudar para o mesmo grau e que mais pesquisas são necessárias para descobrir o porquê.

De forma geral, esses resultados mostram que talvez precisemos reconsiderar o que entendemos por personalidade. Embora possamos pensar em nossas personalidades como partes estáveis ​​de quem somos, fica claro que isso não é necessariamente verdade.

Roberts espera que suas descobertas desencadearão novas pesquisas sobre como a mudança acontece durante a terapia. Pode ser que a personalidade muda não por técnicas terapêuticas específicas, mas por algo comum a toda a terapia, como a atenção positiva e o cuidado que os terapeutas dão aos pacientes.

Seja qual for o caso, Roberts acredita que seus resultados podem "causar um reboliço" no campo de pesquisas em personalidade.

"Há algumas pessoas no meu campo que não acreditam na personalidade e alguns que não acreditam em mudanças de personalidade", diz Roberts. "Eu estou dizendo que, não só os traços de personalidade existem, mas que também você pode mudá-los. Isso bagunça a visão de mundo de todos. "

Artigo original: A systematic review of personality trait change through intervention. Roberts BW, Luo J, Briley DA, Chow PI, Su R, Hill PL.Psychol Bull. 2017 Feb;143(2):117-141. doi: 10.1037/bul0000088. Epub 2017 Jan 5.

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Gil Sant'Anna

Gil Sant'Anna é professor de Habilidades Socioemocionais no ambiente universitário.  Leciona essa disciplina livre na Universidade Federal do Rio de Janeiro e é pesquisador assistente em Neurociência no Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino.
É TED Speaker, instrutor de Mindfulness e Certificado em Treinamento em Compaixão por Stanford University.
Gil ama Aprendizado Emocional e acredita que esse tem a força necessária para mudar a educação do Brasil.

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